A imagem da baiana afável e sorridente, presente em tudo o que identifica a Bahia e muito do Brasil, expressa apenas parcialmente o que estas mulheres representam para nossa cultura. O alimento que oferecem em seus tabuleiros nutrem nossa própria identidade com aquilo que reconhecemos como parte de nós mesmos, mas não é só: além de acarajé, abará ou cocada, elas oferecem resistência. Sempre ofereceram!
Senhoras de seus tabuleiros, no passado mercaram para sustentar suas famílias, alforriar maridos e filhos, conspiraram, participaram de revoltas como Malê e Búzios, fornecendo comida, armas, até o corpo em ciladas contra os inimigos. Hoje elas lutam por espaço, por suas tradições, por seu ofício. Parece menos do que já foi um dia, mas não é pouco.
Desde tempos coloniais as baianas se apropriaram de espaços públicos da cidade do Salvador, fazendo “ponto” e tirando o sustento da venda de seus produtos. A partir do séc. XX, as alterações urbanas e de mercado vão aos poucos acuando essas profissionais, que têm se visto diante de paradoxos. Ao tempo em que têm seu ofício declarado Patrimônio Imaterial Nacional, encontram sérios entraves para exercê-lo.
Apesar de o acarajé ser tombado pelo município, viram-se de fora da nova Fonte Nova, onde sempre tiveram lugar cativo, sendo preciso travar verdadeiro embate com a FIFA para reavê-lo, o que aconteceu, mas em desvantagem com outros produtos. Recente determinação da justiça proíbe que elas fritem seu bolinho nas areias das praias de Salvador, desgarrando-as de sua paisagem natural.
Como se isso não bastasse, têm de fazer frente a uma lógica de mercado que faz do acarajé produto dissociado de sua origem de oferenda sagrada aos deuses do candomblé, permitindo a qualquer um comercializá-lo. Fica difícil às autênticas baianas concorrer com bares, restaurantes e delicatessens, e até com empreendedores, que comercializam o acarajé nas ruas com empregados contratados portando guarda-pó, em franco descumprimento a decreto municipal que determina vestimenta típica, de acordo com a tradição afro-brasileira.
O problema da vestimenta representa risco maior: o de as baianas virem a perder o título de Patrimônio Imaterial Nacional do IPHAN, concedido em 2005 e revisto a cada dez anos, o que se dará no ano que vem. Uma vez descaracterizado o ofício das baianas, pelo distanciamento de suas tradições - que vão da indumentária ao modo artesanal de fazer o acarajé -, ele perde seu valor patrimonial. Fazem-se necessárias políticas públicas urgentes de apoio às baianas e a sua atividade, para que elas e seus saberes não sucumbam a tantas dificuldades. Senão, a inocente canção de Caymmi poderá soar como vaticínio aos nossos ouvidos: “Quem quiser, que procure fazer!”.
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| Reprodução Arquivo ABAM |
Referência bibliográfica
ENCONTRO NACIONAL DAS BAIANAS DE ACARAJÉ, 3, 2013, Salvador. A baiana tem dendê. Salvador: Kawo-Kabiyesile, 2013. 78 p.
GASPAR, Lúcia. Baianas de acarajé. Recife, 17 nov. 2010. Disponível em: http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar./index.php?option=com_content&view=article&id=841:baianas-de-acaraje&catid=37:letra-b&Itemid=1. Acesso em: 07 mai. 2014.
Instituto do Patrimônio Histórico e artístico Nacional (Brasil). Departamento do Patrimônio Imaterial. Ofício das baianas de acarajé. Brasília: 2007. (Dossiê IPHAN:6).

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