Na concepção do professor Milton Santos, “cidadão é um indivíduo dotado de direitos que lhe permitem não só se defrontar com o Estado, mas afrontar o Estado”. Negro de origem humilde, ele sabia de experimentar que a escravidão marcou os espíritos e marca ainda nossas relações sociais, o que, historicamente, relegou negros e pobres a situação de grande desigualdade no Brasil. E o quanto custa, aos negros e aos pobres, fazer valer os seus direitos: com todos os títulos acadêmicos e reconhecimento acumulados ao longo da vida, Milton Santos, segundo registro próprio, não era considerado “cidadão integral” em seu país.
As baianas de acarajé bem sabem do que o professor está falando. Sabem de escravidão, de preconceito e de títulos. Apesar de símbolos vivos da história da Bahia e do Brasil a povoar nosso imaginário em marchinhas de carnaval, concursos de miss, alas de escola de samba, samba-enredo, samba-canção, verdadeiro produto de exportação explorado pelo turismo e pelos políticos em suas campanhas, são desassistidas pelo poder público e enfrentam constrangimentos só explicados por razões históricas.
Detentoras de saberes ancestrais, apesar de seu ofício ter sido declarado pelo IPHAN Patrimônio Imaterial Nacional, de o acarajé ser também objeto de tombamento pela cidade do Salvador e o Dia da Baiana ser data nacional, as baianas lidam com dificuldades relacionadas a pontos de venda, concorrência desleal, perseguição religiosa e luta por políticas públicas que reafirmem seus costumes e tradições.
Reunidas em torno da ABAM – Associação das Baianas de Acarajé, Mingau, Receptivo e Similares, elas têm empreendido verdadeira batalha em prol do seu reconhecido e titulado ofício, “rodando a baiana” quando preciso. Bem provavelmente nunca leram o baiano Milton Santos, mas compartilham de sua opinião de que “o indivíduo completo é aquele que tem a capacidade de entender o mundo, a sua situação no mundo e que, se ainda não é cidadão, sabe o que poderiam ser os seus direitos”. Estão brigando por eles e por suas tradições, ameaçadas. Que, na opinião do antropólogo Ordep Serra, nosso entrevistado, vão resistir. Contamos com isso!















