segunda-feira, 26 de maio de 2014

HISTÓRIA - Tem graça como ninguém

Diz o itã (lenda): “Foi Oiá ou Iansã, que é também Santa Bárbara, a mulher que ensinou para as outras mulheres como fazer o acará, o nosso acarajé. Começou então o ofício, o trabalho para que elas pudessem criar os seus filhos”.*

Datam do período colonial os primeiros registros das mulheres de ganho, escravas que, além das tarefas forçadas e não remuneradas, trabalhavam nas ruas a serviço de suas patroas, iniciando a tradição do tabuleiro, com venda de diversos quitutes.

A atividade de ganho permitiu que algumas conseguissem juntar o suficiente para a compra de sua liberdade, pois apesar de obrigadas a pagar certa quantia a seus proprietários, podiam ficar com o excedente. Outras, já libertas, trabalhavam como ganhadeiras para a compra da liberdade de familiares, ou mesmo para garantia da subsistência de sua própria família.

A primeira notícia que se tem sobre a venda do acarajé data do século XIX. As noviças que ingressavam na comunidade do candomblé, devendo obrigações para suas divindades, preparavam e vendiam, em oferenda ao divino, este quitute em seus tabuleiros para angariar recursos para a comunidade.

O acarajé, que era um alimento destinado a saciar a fome da população pobre e escrava que perambulava pelas ruas da cidade, com o passar dos tempos, passou a fazer parte do cardápio de pessoas de todas as classes sociais, tornando-se a síntese das comidas que fazem parte do tabuleiro.

O receituário ancestral africano foi passado de geração a geração, o que possibilita que ainda hoje seja degustado pelas ruas da cidade do Salvador e de muitas outras do país, provendo famílias, em sua maioria lideradas por mulheres. Segundo Rita Santos, presidente da ABAM, 80% das baianas não têm marido, “o marido é o tabuleiro”. Elas trabalham muito, fazem tarefa de casa, vão à rua comprar, preparam tudo e depois saem para vender: “Marido não aguenta, só se é filho de baiana, aí ele entende, se liga com ela e até ajuda”.

* Tradição oral.


Referências bibliográficas

GASPAR, Lúcia. Baianas de acarajé. Recife, 17 nov. 2010. Disponível em: http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar./index.php?option=com_content&view=article&id=841:baianas-de-acaraje&catid=37:letra-b&Itemid=1. 

BORGES, Florismar Menezes. Acarajé: tradição e modernidade. 2008.133 f. Dissertação (Mestrado em Estudos Étnicos e Africanos) – Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia.

Instituto do Patrimônio Histórico e artístico Nacional (Brasil). Departamento do Patrimônio Imaterial. Ofício das baianas de acarajé. Brasília: 2007. (Dossiê IPHAN:6).

MARTINI, Gerlaine Torres. Baianas de Acarajé: A uniformização do típico em uma tradição culinária afro-brasileira. Brasília, 2007. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília.

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