BLOG: A baiana é apenas folclore?
Ordep Serra: Folclore é sério quando feito a sério, mas muitas vezes adquire o sentido de minimizar culturas que não são a nossa. Acarajé é criação importante para a cultura baiana e brasileira, não tem nada a ver com folclore. O senso comum não é inocente, a base ideológica que atribui à baiana sentido de folclore é preconceito, racismo, inserção ideológica classista e negativa que muita gente tem conseguido fazer e que me repugna. Mesmo assim elas têm resistido e conseguido manter seus ensinamentos culturais, a figura de mulher independente, capaz de prover sua subsistência.
BLOG: O que a baiana representa para nossa identidade cultural?
Ordep Serra: Ela é importante símbolo dessa identidade, de nossas origens, passa uma imagem amiga, extremamente simpática, identificada com a mulher negra vendedora de acarajé, generosa, a oferecer comida. Mas é muito maltratada, todo mundo aplaude, gosta de ver, as empresas de turismo exploram bastante mas não fazem nada por ela. A tônica das coisas daqui, por sinal. Veja a luta para que lhes fosse permitido vender acarajé no estádio da Copa. Essas mulheres trabalham duro para ganhar a vida, e apesar de símbolos da Bahia, não há política séria que as favoreçam.
BLOG: O que deveria ser feito para valorizar nossas baianas?
Ordep Serra: Não há programa de proteção à riqueza cultural que representam, riqueza gastronômica inclusive. São olhadas de maneira muito equivocada, vez em quando há um gesto de benevolência como se fosse uma grande dádiva, mas não o que elas precisam. Exemplo disso é que seus espaços de venda estão cada dia mais reduzidos e agora estão sendo tomadas de assalto pelas pessoas das igrejas pentecostais. Mas não é só, tudo isso faz parte de um problema maior: a Bahia está em sétimo lugar em feminicídio, faltam políticas públicas sérias, há verdadeiro descaso com mulheres pobres, negras, em situação desigual.
BLOG: O acarajé passou de oferenda a produto?
Ordep Serra: Passou e não passou. O acarajé é iguaria sagrada dos terreiros, consagrada a uma deusa, Oiá ou Iansã, sua comida predileta. Muitas baianas fazem acarajé como parte de sua obrigação com os orixás, que duram pela vida inteira. Como é coisa boa, gostosa, muita gente aprendeu a fazer para explorar como negócio. Mas a tradição continua, o papel de oferenda ainda existe e não está ameaçado. A festa de Santa Bárbara (4 de dezembro), dirigida a Iansã, é das festas populares mais fortes em Salvador. Nesta hora mesma em que estamos conversando, deve ter gente colocando acarajé em algum peji (altar nagô).
BLOG: Como você vê essa disputa entre o bolinho de Iansã e o de Jesus?
Ordep Serra: Negar a origem desse quitute é um ataque bestial. Não há como classificar como aceitável, Jesus nunca fez acarajé, quem sabe fazer mesmo é o povo de terreiro. A intolerância religiosa é um perigo, porque não fica só na religião, se estende a costumes, à política, mas acredito que a cultura afro-brasileira é suficientemente forte para ultrapassar isso. Não sou contra as evangélicas venderem, terem sua crença, mas não podem hostilizar o outro, dizer que é bolinho do diabo, que tem feitiço... Até porque isso é crime. Essas mulheres são doutrinadas pelos pastores, que chegaram a falar em televisão atacando as baianas. Hoje eles já não se expõem tanto, o Ministério Público interveio. Mas acho que isso vai ser superado, sou otimista.
BLOG: Como manter a tradição das baianas se muitas até se recusam a usar os paramentos, comprometendo a conquista do título de patrimônio imaterial?
Ordep Serra: Não vai acontecer, não vão perder o título, muitas vão deixar de vender paramentadas mas a ABAM insiste, e muita gente faz isso com intenção religiosa, não só comercial. O que está faltando não é um bom gesto de apoio às baianas, mas traçar uma política de preservação. Fica uma coisa meio hipócrita, cínica por parte das autoridades, como acontece com a capoeira, que também foi declarada patrimônio imaterial, mas cadê o plano de preservação da capoeira? E do acarajé? Faz-se a declaração como se ela fosse suficiente, mas não é. Podemos seguir alguns modelos de outros países, os franceses, por exemplo, dão muita importância à preservação de sua cultura gastronômica. Imitamos tanta coisa dos outros, por que não imitamos isso?
*Mestre em Antropologia Social pela UNB e doutor pela USP, professor aposentado da UFBA, é membro da Associação Brasileira de Antropologia, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Conselho de Cultura do Estado da Bahia e presidente de sua Câmara de Patrimônio, conselheiro do Grupo Hermes de Cultura e Promoção Social, do qual foi fundador. Coordena o Movimento Vozes de Salvador e é membro do Fórum "A Cidade Também é Nossa".
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